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Uma brisa sobre arte

 Recentemente eu li um texto da minha amiga Rosie, este que pode ser encontrado aqui,

Enquanto eu li eu tive algumas reflexões sobre arte, para falar a verdade eu mesma não sou lá a maior entendedora do assunto, algumas pessoas me acusaram de não saber o que é arte pois chamei algo de "ruim" como se implicasse um julgamento objetivo, e não vou mentir que foi algo que me afetou bastante e me incentivou a estudar mais. Uma vez eu defini arte como uma forma expressão direta ou indireta, e o que isso significa? Que qualquer forma de alguém se expressar fisicamente, desde um desenho para um filme e pichações é arte, e na arte você é capaz de ver um pouco do artista. Seriam meus textos uma forma de arte? Bom, sim. E já houveram discussões sobre videogames e até mesmos quadrinhos serem ou não considerados, o fato de tal discussão existir é ao meu ver ridículo afinal obviamente SÃO ARTE. 

Mas um grande problema na arte é que vivemos em uma sociedade capitalista, e dentro do capitalismo existe o mercado que é seu principal meio, ou seja a arte acaba virando um produto e claro que haverá um investimento maior naquilo que irá vender mais. Na década passada o cinema foi afetado por isso, houve uma explosão de filmes de super-heróis e isso vai além pois esses filmes se conectavam em um grande universo, estou a falar do MCU mas outros tentaram recriar isso. Isso afetou demais a indústria de cinema pois o mercado definiu que filmes de herói eram o que fazia sucesso e deviam dominar, eu não vou mentir eu adoro filmes de herói mas eu posso enxergar o mal que fizeram porem isso é culpa do capitalismo em si, hoje em dia porém podemos ver uma mudança por vários fatores mas um deles é em como esses filmes provaram ser semelhantes ao tipo de história que adaptam: eles são todos a mesma coisa. Inclusive todos se lembram de quando Martin Scorsese acusou eles de não serem cinema, em minha humilde opinião? Eles são cinema, eles são arte e negar isso é produto de elitismo. 

Se quiserem uma indicação minha eu já adianto como amo a trilogia dos Guardiões da Galáxia!

E isso me lembrou de outra forma de expressão artística, que é justamente os quadrinhos(HQ, mangá o que for), uma forma de arte tão injustiçada ao ponto de ter muitos acusando de nem ser arte. Eu acho loucura alguém dizer isso em uma mídia onde histórias como "Hellblazer" e "Lost Girls" existem, mas não só essas como até mesmo o quadrinho da semana do Batman socando a cara do Duas-Caras pela 12931238 vez ou o Cebolinha tramando para pegar o Sansão são sim arte. Eu citei Lost Girls, quando eu poderia ter citado qualquer outra HQ do Moore, mas eu escolhi essa justamente por ser uma menos conhecida, é eu sou doida mesmo.

E eu falei do mago não é mesmo? Alan Moore é um dos meus artistas favoritos, apesar de eu discordar de muitas afirmações dele em especial as recentes, afinal não é só porque gostamos muito de alguém que nós devemos concordar com tudo que tal pessoa afirma não é ? 
Mas voltando ao Moore, eu o chamei de mago e não foi a toa, afinal de acordo com o próprio a arte não é muito diferente da magia! Afinal não seria a magia uma forma de manipular a realidade? Essa manipulação realiza mudanças na consciência, um artista é um mago. Mas eu acho que é melhor deixar o próprio mago em pessoa explicar com esse vídeo

Moore fala de música nesse vídeo, um tópico interessante de fato. Eu não entendo de música também, mas eu adoro ouvir de tudo, já aviso que meu gênero favorito é Deathrock e sou deathrocker oficialmente só falta eu ter o visual! O que eu quero falar é que não existe mídia que tenha me afetado tanto quanto a música, quando eu estava numa fase difícil e complicada eu me agarrei nela e eu ouvi músicas que pude identificar bem os meus sentimentos, em especial as músicas do genero gótico, e desde então acabei adentrando na sub, isso tem anos aconteceu em 2015, mas no ano seguinte minha vida mudou drasticamente e eu reprimi isso por muitos anos. Quem eu era de 2016-2017 não era eu. Foi alguém que se moldou para agradar a sociedade, e quando isso foi quebrado em pedaços lá em 2018 eu voltei a ser uma pessoa deprimida e um tanto "deslocada" que é quem eu sou até hoje, alguém que sente que não pertence a este mundo. A verdade é que eu me considero um alien, não entendo outras pessoas, o que é considerado "senso comum" é desconhecido para mim, e foi por meio da música que eu descobri que não estou sozinha com isso.

A arte me afetou assim, me senti acolhida com a música, e esses tempos eu andei lendo um livro chamado "Esculpir o Tempo" de um diretor de cinema já falecido chamado Andrei Tarkovsky, eu li isso após ver um de seus filmes "O Espelho" um filme maravilhoso que vai contra todos os padrões estabelecidos. Nesse livro ele inicia falando justamente deste filme, sobre como ele recebia diversas cartas: de pessoas questionando sobre o filme, pessoas criticando e condenando, críticos elogiando sem nem ao menos saber o que diziam.

Porém o mais importante para ele, que foi o que me incentivou a escrever este texto: as cartas de pessoas que se identificaram emocionalmente com o filme e ainda confessaram um pouco sobre elas mesmas. Um relato me chamou a atenção, era a carta de uma mulher descrevendo uma conversa que teve com a filha por conta do filme:

" . . . Quantas palavras uma pessoa conhece?", pergunta
ela à mãe. "Quantas ela usa na sua linguagem cotidiana?
Cem, duzentas, trezentas? Envolvemos os nossos sentimentos
em palavras e tentamos expressar através delas a tristeza e
a alegria e todo tipo de emoções, exatamente aquelas coisas
que, na verdade, são impossíveis de expressar. Romeu disse
belas palavras a Julieta, palavras vivas e expressivas, mas
elas certamente não disseram nem a metade daquilo que dava
a Romeu a sensação de que o coração ia saltar-lhe do peito,
que lhe prendia a respiração, e que levava Julieta a esquecer-se
de tudo, exceto do seu amor.
"Existe um outro tipo de linguagem, uma outra forma
de comunicação: a comunicação através de sentimentos e
imagens. Trata-se do contato que impede as pessoas de se
tornarem incomunicáveis e que põe por terra as barreiras.
Vontade, sentimento, emoção — eis o que elimina os obstáculos
entre pessoas que, de outra forma, encontrar-se-iam
nos lados opostos de um espelho, nos lados opostos de uma
porta. ... A tela se amplia, e o mundo, que antes se encontrava
separado de nós, passa a fazer parte de nós, tornando-se
uma coisa real... E isto não ocorre através do pequeno Andrei:
trata-se do próprio Tarkovski dirigindo-se diretamente
à platéia, sentada do outro lado da tela. Não existe morte,
existe imortalidade. O tempo é uno e indiviso, como se diz
num dos poemas: 'A uma mesa, sentam-se avós c netos... .'
A propósito, mamãe, liguei-me a esse filme sobretudo por
seu lado emocional, mas estou certa de que podem existir
outras maneiras de vê-lo. E quanto a você? Por favor,
escreva-me dizendo... ."

Essa carta é simplesmente perfeita, foi com ela que uma lâmpada se ascendeu em minha cabeça e eu estou aqui. Assim como a garota fala "Existe um outro tipo de linguagem" ela falava sobre a arte, nós humanos nos comunicamos com a fala, com a escrita, com o que for mas nunca existem palavras o suficiente que sejam capazes de nos fazer expressar o que realmente sentimos, á verdade é que palavras são limitadas, mas eu irei estender isso para dizer que o que de fato é limitado é a comunicação humana. Eu mesma não consigo me comunicar direito, uma vez eu tive uma crise e cogitei tirar minha própria vida e algumas pessoas vieram falar comigo, mas eu não sabia o que dizer então procurei me expressar por meio de poemas e desenhos, mas eu me arrependo disso pois não deixei claro minhas intenções. Por isso desenhamos, cantamos, escrevemos ou que for, queremos nos expressar de alguma forma, pois queremos comunicar de alguma forma nossos sentimentos sem ficarmos limitados. Palavras podem ser limitadas mas no fim ainda é possível alguem fazer uso delas para se expressar, a escrita, as rimas a canção podem provar isso, mas nem sempre isso é suficiente. Ou talvez o artista conheça ou domine uma melhor forma de se expressar.

Toda forma de expressão é arte, mas como falei nos infelizmente vivemos numa sociedade capitalista com um forte viés conservador, no caso de nós latino-americanos uma fortemente cristã, e por conta disso existem determinados padrões que são considerados "aceitáveis". Por isso eu me aproximo muito daquelas obras que buscam quebrar o que é aceitável, quebrar as regras, chocar, impressionar!
Um dos meus jogos favoritos é Flower, Sun and Rain dirigido pelo PUNK JAPONÊS Suda51, criador de um genero de jogos conhecidos como PUNK GAMES. Esse jogo (juntamente com Pathologic HD) é um jogo que fala muito comigo, mas acima de tudo é um tão diferente que vai contra tudo estabelecido pela indústria, afinal é um jogo de andar de ponto A ao B e ler dialógos(novamente assim como Pathologic HD) ao mesmo tempo que se deve fazer puzzles matemáticos com a ajuda de um guidebook, não parece divertido né? A ideia é essa. A arte pode ser divertida, como também não pode. O que não é divertido pode passar uma mensagem, um sentimento. Morrer para um chefe em Dark Souls não é divertido, assim como refazer os mesmos 15 minutos de labirinto cheio de inimigos para voltar ao chefe, mas podemos notar que isso é proposital afinal o jogador não ficará pressionado e incentivado á prestar mais cautela durante a luta? Em Flower , Sun and Rain o que acontece é apenas que: Suda51 quis. Para ser honesta eu ainda não fui capaz de compreender 100% as ideias deste maluco mas agora eu sinto que posso ver melhor o que ele quer dizer, Flower, Sun and Rain possuí uma mensagem e ele busca transmitir isso através das mecânicas, música, cenários, personagens, dialogos e é claro com as coisas NADA DIVERTIDAS. 

Voltando a falar de Dark Souls, o jogo tem fama de ser dificil, apesar de existir um exagero em relação a isso, mas você como jogador ira evoluir suas habilidades, descobrir táticas e definir aproximações que sejam mais confortáveis para você, para no fim o jogo te obrigar a repetir esse processo pois ele não é fácil. Mas com o tempo você como jogador irá sentir sua própria evolução e olhar para trás e ver que não é a mesma pessoa de antes. Um outro jogo que faz isso é The Elder Scrolls Morrowind, um jogo BABACA QUE NUNCA TE DÁ A MÃO, sério esse jogo é díficil no começo do jogo, ainda mais se tu for de classe mágica, e mesmo quando tu vai evoluindo ainda sente a dificuldade. Mas é prazeroso você chegar no level 20, com sua casa enorme e seu inventário cheio e armas mágicas raras, e de repente você começa a voar até seu destino e encontra monstros que te davam dor de cabeça sendo facilmente destruídos por seus feitiços, você evoluiu. Aliás eu queria também comentar como Morrowind é perfeito em diversos sentidos, ele retrata uma cultura tão única como a dos Dunmer e não só isso como demonstra perfeitamente como é viver em Morrowind, como é viver como um Dunmer: é uma vida díficil, afinal quem queria morar num ambiente tão hostil cheio de monstros perigosos e violentos com uma terra dificil de cultivar dependendo de ovos como alimento? E pior: Dunmers adoram Daedras que trazem mais desgraça que benefícios. Mas eles escolheram esse tipo de vida, para eles próprios aprenderem mais e ficarem mais fortes, para eles evoluírem como pessoas em todos os sentidos. E esse jogo retrata isso perfeitamente.

Incrível né? A arte nos faz sentir evolução. Isso mesmo eu não chamei de "jogos" eu chamei de arte pois é isso que jogos são. 

Recentemente postei um texto sobre Tokio Morishima, um personagem de videogame, que falou comigo em todos os aspectos e me senti representada naquele personagem. 

E falando em textos meus, meses atrás eu postei sobre Duna do Lynch, um filme considerado "ruim" mas que falou comigo, e eu amei o filme. Afinal foi esse filme que me fez conhecer o maravilhoso universo e Duna, e o estilo onírico e diferente do Lynch até que fez bem para o filme. E esse filme também foi uma das introduções que tive ao próprio diretor, seus filmes tem um lugar no meu coração e são uma inspiração para a minha própria arte. Sim eu sou artista, eu escrevo, eu desenho e eu desejo fazer jogos.

Eu gostaria de encerrar encerrar com outro texto direto do livro do Tarkovsky:
A criação artística, afinal, não está sujeita a leis absolutas
e válidas para todas as épocas; uma vez que está ligada
ao objetivo mais geral do conhecimento do mundo, ela tem
um número infinito de facetas e de vínculos que ligam o homem
a sua atividade vital; e, mesmo que seja interminável
o caminho que leva ao conhecimento, nenhum dos passos
que aproximam o homem de uma compreensão plena do
significado da sua existência pode ser desprezado como pequeno
demais.

Não existem regras para a arte. Um artista, um mago, pode e deve fazer o que bem entender, deve se expressar da forma que achar melhor, podem vir críticas duras e pesadas, podem vir pessoas que fingem que descobriram seu trabalho, mas no fim virão aqueles que se conectaram com você. Aqueles afetados emocionalmente pela sua arte. E é aí que a magia faz efeito. 

Como falei eu me sinto uma alien neste mundo, raramente encontro pessoas que eu possa me conectar, mas foi graças a arte que eu senti que não estava sozinha, com filmes, música, jogos, desenhos etc. Eu confesso que não entendo nada de arte. Apesar que eu ainda sim irei criticar ela, uma critica humilde e honesta. Sim Rosie eu li seu texto eu leio todos eles, mas eu só gostaria de acrescentar um detalhe curioso: falar mal de algo chama mais atenção que falar bem. É por isso que críticas negativas são as que mais fazem sucesso, assustador honestamente e triste. Mas eu gostaria de entrar em outra discussão: existe arte boa e arte ruim? Como eu falei isso tudo é subjetivo. Claro existem fatores objetivos: um jogo pode ter muitos bugs que atrapalham a experiência. Mas no fim quando o assunto é arte o subjetivo domina, uma pessoa pode gostar de algo que a maioria acusa de ruim (eu com Duna do Lynch) assim como odiar algo que a maioria chama de bom(eu odeio Chainsaw Man, me perdoem amigos), mas essa é a graça afinal a arte nos afeta de formas diferentes! 

Eu disse que ia encerrar esse texto mas mais coisa veio na cabeça.
Eu queria falar tanto mais mas me sinto limitada.
Poisé!
Em breve posso retomar este assunto.
Até breve.

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